De Ponta Cabeça


12/10/2006


 

Um passar agoniado

 Já faz algum tempo que eu conversei com um grupo de pessoas sobre meu desperdício. O desperdício dos dias. Eu acabei afirmando:
 - Só aproveito os fins-de-semana. Como tenho que estudar, assistir aulas (entre outras atividades), vivo a semana inteira para chegar sexta-feira. Coloco a semana em vão só para esperar o que vem depois. Para mim, é um desperdício.
 - Sim, é um desperdício: se você considera só três dias da semana inteira.
 Depois dos dias trabalhosos, difíceis, sexta-feira é muito mais que um simples dia. Significa três. Os três mais solenes da semana.
 Sei que é um desperdício viver "de verdade" só uns doze dias destacados entre os trinta, trinta e um dos meses. É insuportável errar desperdiçando não os dias, mas a vida.
 Não tenho o que fazer.O tempo é severo: os dias são os rascunhos dele, que depois de escritos são literalmente apagados. Por isso é que não conseguimos voltar. Só a memória fica com o papel de uma tímida testemunha do que aconteceu. De tão tímida, algumas coisas nem diz, outras esconde no canto dos momentos. Dentre os paraísos estrelados e os infernos, não se tem fronteira. Ficam misturados no horizonte do adeus.
 É muito conhecido tentar "viver cada momento como se fosse o último". Creio que quem inventou esta frase é muito criativo. Mas a polêmica é essa: nem mesmo o próprio autor seguiu completamente a frase. São nos momentos de tédio, os que os esperamos acabar sem nem mesmo tê-los vivido o suficiente: são os momentos jogados fora. Os que não temos nada para fazer, os que devemos esperar algo ou alguém, os que por mais que estejam a maior chatice, não se pode evitar.
Do que adianta tentar fugir do erro do desperdício de tempo se é ele que nunca se cala? Não tem solução. Procuramos só nos divertir com o que gostamos.Talvez a diversão também esteja escondida no fundo do abismo do marasmo. Mas é difícil descer um "abismo"sem fracassar e acabar desperdiçando de novo.
 Segundas-feiras são renegadas. Indicam a chateação renascendo. Eu não gosto da maioria das segundas-feiras. Parece que o fim-de-semana está tão longe que preciso pegar um avião para chegar nele. Tem alguma maneira de viver uma segunda-feira (fora das férias) que não esteja nos dando de bônus um monte de coisas para fazer?
 É isso que me irrita. O tempo. É o gesto de eu estar minada de segundos se indo por dentro. São os anjos que me cercam, esperando os anos se derramarem para me levarem embora.
 

Escrito por Mariana às 13h38
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