De Ponta Cabeça


29/06/2006


 

Iruanzinho

Eu gosto de hamsters. Tenho um, Widin, e o outro que não volta mais para mim, Iruan.
Depois de tantos sonhos criados, de felicidade inventada, de uma constante vida que parecia nunca mais terminar. Mas tudo tem seu tempo.Sua era.
É difícil dar um fim para si mesmo, então a própria vida nos dá para nos poupar das atitudes indesejadas.
Iruan ficava solto pelo lavabo e o tratava
como se fosse sua própria casa, seu pedaço de mundo, que botei sob o seu governo. Iruan teve um ano e sete meses para cumprir sua chefia.
Um pouco de muito. O tempo não significou fronteira. Os hamsters não foram talvez feitos para se entender, mas para serem explicados. A única explicação
foi a que não tive. Iru me convenceu de me contentar com o que podia deduzir. Não precisei de palavras para ter meu bichinho. Não precisei de respostas para aceitá-lo.
Não precisei de tempo para perdê-lo.
Fui ver o Iruanzinho numa certa tarde. Estava dormindo. Ele foi sempre gordinho. Não estava mais. Murchou sem dieta. Murchou por comodidade. Peguei-o com pressa. A pressa imprecisa.
A pressa não fez Iru se acordar. Mas não o fez dormir. Imóvel na minha mão, sem precisar de um interrogatório para ir embora.Peguei-o. Mas não senti que ele estava ali.
Para que tanta distância de mim? Fugiu sem levar o próprio corpo. Não estava mais na minha mão. Só sabia que estava longe. Mas em nenhum lugar.
Talvez o espaço branco que ficou de seu governo não foi deixado para trás, mas apenas sido deixado no infinito.
Não entendi no início. Não entendi por que o Iruan não estava ali. Só ri depois de o sentir feliz. Só parei de chorar quando entendi que o Iruan não havia morrido, mas apenas não estava mais comigo.

Escrito por Mariana às 12h48
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